“Não come então”

Desde que me lembro por gente, moramos em um apartamento: eu, minha mãe, meu pai e minha vó. A questão “morar com vó” parece e em alguns momentos é um paraíso. Comida gostosa e fresca todos os dias, carinho, presentinhos e muito amor. Muitas histórias para contar, sabedoria e muita experiência de vida. Eu concordo com tudo isso.

Acontece que eu e minha vó, Dona Dirce, figura que provavelmente vai aparecer muitíssimo por aqui, temos uma relação de AMOR/ÓDIO intensa. A gente ama se odiar e odeia se amar. E sempre foi assim. E é uma coisa que eu nunca vou saber explicar, se é por causa da diferença de idade e o choque de gerações – que moderno isso – ou nossos “santos” simplesmente não batem. A real é que a gente briga muito e briga de verdade; não concordamos em nada; qualquer coisa é motivo para discussão.

E não se preocupem, eu tenho plena noção de que 50% dessa relação conturbada é minha culpa. Eu sou respondona, impaciente e muitas vezes quando eu podia simplesmente ficar quieta, eu incentivo a briga. Mas Dona Dirce também leva sua parcela de culpa nessa história, não pensem que ela escapa não! Ela é extremamente protetora – coisa de vó, só que além dos limites -, ela é estressada e estressa todo mundo que está a sua volta, fala sem parar e muitas outras coisas que com o tempo vocês vão descobrir.

Um dia no trabalho, liguei para tirar uma dúvida com ela. Tempos depois, lá estava Dona Dirce falando e falando sem parar sobre algo que eu nem lembro mais, mas que não tinha nem um pouco a ver com o que eu tinha ligado para falar. Depois de muito esforço, consegui me despedir e recebo um “Cuidado ai hein filha, pelo amor de Deus”. Eu desliguei e tudo que eu conseguia pensar era: Estou dentro de uma casa, trancada, DO QUE RAIOS EU PODERIA ME PROTEGER?!  FANTASMAS? ZUMBIS? UM METEORO? MEGAN FOX DEPOIS DE SER POSSUÍDA PELO RITMO RAGATANGA? 

 

 

Esse é o tipo de coisa que me deixa irritada no começo, mas depois quando paro para pensar, só consigo rir e pensar: Ela vai me enlouquecer. Ela só faz pelo meu bem.

Algumas semanas atrás eu e meu namorado estavam jantando. E se tem uma coisa que eu não posso reclamar é da comida da minha vó. SANTA MÃO DE DONA DIRCE, que faz as melhores comidas que eu já comi e que me faz ter tanto gosto em comer. Porém, ocasionalmente, minha vó pega algumas manias. Antes era o sal e agora a pimenta. Pimenta na salada, na carne, no arroz – brincadeira – mas pimenta em tudo que se pode colocar pimenta. E eu gosto de pimenta, como já disse não tenho muita restrição a comida, mas TUDO TEM LIMITE. Até mesmo sabores gostosos como o da pimenta.

Voltando ao jantar, lá estávamos nós dois comendo e comecei a sentir que estava extremamente apimentado. Não lembro bem o que era a comida, mas era algo não precisava de pimenta, e se precisasse seria só um cheirinho. Eu, inocente que sou, resolvi falar: “Vó, ta bem apimentado hein?! Acho que não precisava de tanto aqui não.” E esse era um tópico que eu vinha trazendo à algumas semanas já – e claro sem resultados. Esse meu comentário virou uma briga horrível, onde eu era ingrata e não sabia apreciar o que eu tinha. E leonina não deixa barato e revida briga, sim, e se reclamar revida duas vezes. De qualquer maneira, a briga tomou proporções desnecessárias, até que veio a frase:

“ENTÃO NÃO COME”

Espeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeera ai. Ai é pegar pesado cara, me deixar sem comida? Isso lá é coisa que se fala para uma gordinha de espírito que nem eu? NÃO PRECISA DESTRUIR MEU CORAÇÃO DESSE JEITO.

Bom, eu levantei, querendo parecer uma pessoa decidida e não levando em consideração QUÃO PESADO tinha sido o argumento. Levantei, ryca e phyna, empurrando o prato: “Não como então”.

A questão é que eu cheguei no meu quarto e pensei no gostinho da comida. Mesmo apimentada, aquele gostinho maravilhoso e cheiro delicioso e eu só conseguia pensar: Eu preciso voltar, não tem outra saída, o orgulho tem que ser menor que a fome. E meu amor, se tem uma coisa mais fácil do que minha fome ser maior que algo, está pra nascer. Então eu me olhei no espalho, respirei fundo e voltei. Sentei na mesa e continuei a comer como se nada tivesse acontecido. “Briga? Quem? Onde?”

A real é que: comer é uma prioridade. E deixar de comer uma comida quentinha, gostosa, por uma briguinha é muita falta de maturidade. Então a lição de casa de hoje é: deixe seu orgulho de lado e aproveite enquanto a comida está quente. Por que ela pode esfriar  – e mesmo continuando gostosa fria –  ou acabar e ai, me amigo, eu tenho certeza que você vai tanto se arrepender, quanto sentir falta da sua vó, ops, da sua comida.

 

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2 comentários sobre ““Não come então”

  1. nathalyhimmel disse:

    Eu ri sozinha aqui, não sei se foi instagram ou a afinidade de santo mesmo. Amei a sua maneira de escrever 🙂 Agora vamos voltar no post, pooooooooooxa da para amar a sua vó? Ela faz comida/alimento/vida para você hahahaha e isso é um puta mimo cara! Eu não tenho avó e minha mãe faz comida as vezes e xingando quando vou lá. Então aproveita os mimos da vó, come com pimenta, com sal e com amor ❤

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    • Gabriela Serra disse:

      Primeiro de tudo: obrigada ❤️ Hahahahaha afinidade total! Hahaha eu sei que parece -de longe- que não amo ela, mas esse é o nosso jeitinho! A gente odeia se amar e ama se odiar, sabe? Mas no final das contas, a gente se ama de verdade!! Prometo! Hehehe

      Curtido por 1 pessoa

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