Nunca ando só

Por um bom tempo da minha infância, lá quando eu tinha uns 10/11 anos eu fiquei muito tempo sem entrar no meu quarto. O motivo? Medo!

Era um dia normal como qualquer outro quando os helicópteros começaram a chegar de monte. Da polícia, de imprensa, de tudo que se pode imaginar. Barulho de carro de polícia, de buzina, caos. Por muito tempo um prédio logo na frente do meu, ficou abandonado, daqueles que a obra para no meio mesmo; E o que acontecia era que uns caras haviam sequestrado outro cara e estavam fazendo aquele prédio como cativeiro.  E naquele dia em especial a polícia havia descoberto e estava fazendo uma big operação para pegar os caras. Eu vou ser sincera: Não lembro o desfeche da história, mas torço para que tudo tenha ocorrido bem.

A real é que por MUITO tempo aquilo ficou com a minha cabeça e eu simplesmente não conseguia mais entrar no meu quarto, porque a janela era bem de frente para o prédio abandonado. Sim, eu ficava no quarto da minha mãe que era bem ao lado. Sim, eu ficava na sala. Sim, o problema era meu quarto. Não, eu não sei o motivo. A verdade é que medo em geral não faz muito sentido.

Desde que eu me lembro por gente, esse medo específico – assaltos, roubos, sequestros, QUALQUER COISA relacionada a isso – me apavora. Mas me apavora MESMO, de arrepiar a espinha, de me impedir de sair de casa, de achar que não tem mais solução. Por um bom tempo há uns dois anos atrás após um assalto, eu fiquei com pânico. Eu não sei exatamente se pânico é uma doença que se cura ou você só ameniza, mas tenho estado melhor. Na época precisei tomar remédios e me forçar a melhorar; se não minha única solução seria ficar em casa trancada com medo e pensando em coisas ruins.

Com esses anos tentando melhorar eu aprendi algumas coisas importantes, que eu tento me lembrar todos os dias:

1 – Você pode até superar seu medo, mas isso não quer dizer que ele foi embora. A real é que muitas vezes eu me FORÇO a fazer coisas que eu tenho muito medo. Como por exemplo, andar sozinha na rua. Parece idiota, não é? Mas isso para mim é uma das piores sensações do mundo. Me sinto vulnerável, sozinha e com a sensação de que qualquer coisa ruim pode acontecer. E muitas vezes eu preciso andar sozinha na rua, afinal, a vida SEGUE e nem sempre eu tenho pessoas pra me acompanhar. E ok. Eu ando sozinha na rua. Com medo, rezando para nada acontecer. Isso significa que eu estou superando meu medo? Sim. Significa que porque eu superei ele foi embora? Jamais. Todo dia é um novo dia, todo dia uma superação.

2 – A frase “Não precisa ter medo” não faz sentido. No caso não sou eu – ou ninguém – que escolhe ter medo ou não. Ter medo não é como escolher uma cor preferida. É uma coisa que existe dentro de você e bom, é praticamente incontrolável. E não vou ser hipócrita de falar que nunca “esnobei” o medo de outras pessoas, como “para, pra que ter medo de andar de moto! é tão tranquilo!” ou “Você ta zuando que tem medo de borboleta?” Se eu não tenho medo de andar de moto ou de borboletas, o problema nesse caso é meu, então… VAMOS SEGURAR AI. Esse é um lembrete para mim também, ok?

3 – Falar sobre o medo as vezes ajuda, as vezes não. Eu tenho uma coisa de gostar de ouvir histórias de assaltos, sequestros e blá. Motivo? Eu quero estar preparada para o futuro. Que loucura isso que eu acabei de falar né? Eu gosto de ouvir, para saber como me prevenir: esconder celular, não andar em rua escura, não andar sozinha………… E por ai vai. Mas a real é que: além de não adiantar nada, porque ser for para acontecer, VAI acontecer por mais que eu me previna, eu só estou me machucando cada vez mais. Depois de ouvir essas histórias eu fico mal, com mais medo e é como se fosse um retrocesso no processo todo.

5 – Medos podem ser influenciados pelo ambiente. Eu moro em São Paulo e aqui é um lugar extremamente violento. Se você mora em São Paulo sabe do que eu estou falando e se não mora também sabe, porque sai no jornal todo dia. O nível de crueldade e maldade das pessoas está cada dia maior e “morrer por um celular” virou coisa cotidiana. Então sim, morar em uma cidade onde estou suscetível a tanta violência com certeza piora meu medo.

4 – Nem todo caso é igual. Alguns medos são doenças, outros não. Se algum medo é maior do que a sua força de fazer suas tarefas diárias, sair de casa, ir trabalhar, procure ajuda de um profissional.  Sério!

Mas como nem tudo na vida são só “medos” e “coisas ruins”, a gente tem que seguir em frente e tentar ser feliz, sempre. Tentar viver nossas vidas da melhor maneira possível. Ela é uma só e cada dia que passa eu percebo mais e mais como ela é frágil. E como em um segundo tudo pode mudar ou deixar de existir. Portanto, vivam a vida como se fosse o último dia – Eu sei, isso é muito brega, mas cara, maior verdade. Acredite.

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3 comentários sobre “Nunca ando só

  1. LuDiva disse:

    Texto maravilhoso. me vi em cada pedaço. é impressionante o que uma experiência e um local podem fazer conosco. me vejo todos os dias andando na rua como se tudo estivesse bem, mas por dentro eu tô tremendo.

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